Capítulo 2 · o dinheiro novo
O Dinheiro Novo
Sociedade Anônima do Futebol · Lei 14.193, de 06 de agosto de 2021
A gente demorou pra perceber o tamanho da coisa. Enquanto discutia se o Palmeiras ainda era clube ou empresa, se o Flamengo tinha ou não escala industrial, se o Corinthians ia sair do buraco — enquanto isso, o Congresso aprovou, em agosto de 2021, a Lei 14.193. E a Lei 14.193 mudou, sem precisar de estádio novo nem de técnico novo, a estrutura jurídica que sustentou o futebol brasileiro desde os anos 1930.
O nome é feio: Sociedade Anônima do Futebol. Nas conversas de vestiário virou SAF. Nas planilhas do BNDES virou um vehicle. Na vida do torcedor comum virou aquele momento em que ele lê que o Bahia foi vendido pro City Football Group, e que o Botafogo foi vendido pro americano Textor, e que o Vasco foi vendido — depois desvendido — pro fundo 777 Partners. É difícil se conformar com essa lista. É mais difícil ainda entender que essa lista é, provavelmente, a coisa mais importante que aconteceu com o futebol nacional desde a criação do Brasileirão em ponto corrido, em 2003.
Um mapa de bolso
- 2021Lei 14.193—
Cria a figura da SAF no Brasil
- 2022BotafogoJohn Textor
SAF em recuperação judicial em 2026
- 2022CruzeiroRonaldo Fenômeno
Vendido em 2024 a Pedro Lourenço (Supermercados BH)
- 2022Vasco777 Partners
Ruptura judicial em 2024; negociação com Lamacchia
- 2023BahiaCity Football Group
90% da SAF; rede City
- 2024BotafogoTextor
Campeão brasileiro e da Libertadores
- 2025Flamengoassociativo
Sem SAF — vence Brasileirão pelo 9º título
- 2026BotafogoGDA Luma
Compra da SAF por R$ 525 mi; Textor contesta
A prova de campo
Uma tese assim precisa passar em algum teste — senão vira contabilidade e ninguém se interessa por contabilidade em julho. O teste veio em 2025, no Mundial de Clubes que a FIFA inventou nos Estados Unidos. Flamengo caiu na chave do Chelsea. Botafogo, na chave do PSG. Chelsea e PSG faziam a final. Chelsea e PSG têm orçamento de 700 milhões de euros por ano. E os dois brasileiros ganharam os seus jogos.
virada; gols de Bruno Henrique, Danilo e Wallace Yan
Igor Jesus aos 35' do primeiro tempo
Repare no arranjo. O Flamengo é um clube associativo — não é SAF. Ganhou o Brasileirão de 2025, o nono da história, num 1 a 0 sobre o Ceará em 3 de dezembro. É a maior receita da América Latina, o clube de maior torcida do Brasil, e vive dentro do modelo antigo. O Botafogo é SAF do Textor, com controlador estrangeiro, orçamento gerido com planilha, dívida sob supervisão judicial, e ainda assim virou campeão brasileiro e da Libertadores em 2024. A prova de campo, então, não é que SAF vença. É que o dinheiro venceu, sob os dois modelos, quando é bem administrado.
Textor contesta
Não dá pra fingir que a história do Textor terminou bem. Em 2026, a SAF do Botafogo entrou em recuperação judicial — dívida de aproximadamente R$ 1,2 bilhão — e as ações da SAF foram vendidas ao grupo americano GDA Luma por R$ 525 milhões. Textor contesta a venda na Justiça. Em outra ponta, o Vasco rompeu com a 777 e está fechando com Marcos Lamacchia por mais de dois bilhões. É um mercado ainda imaturo, que aprende no susto.
É importante dizer isso porque a versão triunfalista da SAF — do jeito que circula em podcast de mercado financeiro — soa como se o dinheiro estrangeiro fosse sempre chegar, sempre respeitar governança, sempre honrar contrato. Não é verdade. Uma parte dos investidores está tratando o Brasil como colônia de fornecimento, como a City Football Group trata Palermo. Outra parte vem para ganhar dinheiro rápido, se enrolar com a legislação, e sair. É previsível. Precisamos falar disso sem romance.
Contraponto — leitor honesto
A SAF é uma zona de risco. O modelo de propriedade múltipla, praticado pelo City Group e pelo próprio Textor via Eagle Football, transforma clubes brasileiros em fornecedores de matéria-prima para vitrines europeias — é a lógica de plantation aplicada ao futebol. O colapso da 777 no Vasco não é acidente: é o que se pode esperar quando se troca o clube-associação por veículo de fundo. Se o dinheiro que vem é dinheiro-locação, ele vai embora com o primeiro sinal de prejuízo. E ficará o clube, sem estrutura associativa, sem sócio-torcedor, sem eleição, sem memória.